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Archive for the ‘Esses pequenos…’ Category

Não sei se os direitos de Ruth Rocha sobre o texto me permitem a transcrição dele aqui, mas invoquemos a finalidade didática. Faço-o em homenagem à Leandro, Eduardo e à rimã, e seus rebentos (um dos quais ainda por nascer, mas já identificada com o fenótipo feminino – em tempos de politicamente correto, acho que não posso mais dizer que vem uma menina por aí, porque né…), e apenas como forma de ilustrar uma questão apresentado no BobeatusSunt: crianças são naturalmente possessivas.

E é também em homenagem a esses dois pais e essa mãe – todos de primeira viagem – que eu inauguro a seção “Esses pequenos…” no (…). Divirtam-se.

O dono da bola

(Ruth Rocha)

Caloca é um amigo legal. Mas nem sempre ele foi assim, não.

Antigamente ele era o menino mais enjoado de toda a rua e não se chamava Caloca. O nome dele era Carlos Alberto.

E sabem por que ele era assim tão enjoado? Eu não tenho certeza, mas acho que é porque ele é o dono da bola.

Caloca morava na casa mais bonita da nossa rua. Os brinquedos que Caloca tinha, vocês não podem imaginar.

Caloca só não tinha amigos porque ele brigava com todo o mundo. Não deixava ninguém brincar com os brinquedos dele. Mas futebol ele tinha que jogar com a gente, porque futebol não se pode jogar sozinho.

O nosso time estava cheio de amigos. O que nós não tínhamos era bola de futebol. Só bola de meia, mas não é a mesma coisa. Bom mesmo é bola como a de Caloca, mas, toda a vez que a gente ia jogar bola com Caloca, acontecia à mesma coisa, só o juiz marcar qualquer falta do Caloca que ele gritava logo:

– Assim eu não jogo mais ! Dá aqui minha bola!

– Ah, Caloca, não vá embora, tenha espírito esportivo, jogo é jogo…

– Espírito esportivo, nada! Berrava Caloca. – E não me chame de Caloca, meu nome é Carlos Alberto! – E, assim, Carlos Alberto acabava como tudo que era jogo.

Todas as vezes que o Carlos Alberto fazia isso, ele acabava voltando e dando um jeitinho de entrar no time de novo. Mas, daquela vez, nós estávamos por aqui com ele. A primeira vez que ele veio ver os treinos, ninguém ligou.

Um dia, nós ouvimos dizer que o Carlos Alberto estava jogando no time do “ Faz  de Conta”, que é um time lá da rua de cima. Mas foi por pouco tempo. A primeira vez que ele quis carregar a bola no melhor do jogo, como fazia conosco, se deu muito mal… O time do  “Faz de Conta” correu atrás dele e ele só não apanhou porque se escondeu na casa do Batata.

Aí o Carlos Alberto resolveu jogar a bola sozinho. A gente passava pela casa dele e via, ele batia a bola com a parede. Acho que a parede era o único amigo que ele tinha. Mas eu acho que jogar com a parede não deve ser muito divertido, então, o Carlos Alberto não aguentou mais, apareceu lá no campinho, mas não houve acerto…

E Carlos Alberto continuou sozinho. Mas eu acho que ele já não estava aguentando estar sempre sozinho.

Na quarta-feira, mais ou menos no terceiro treino, lá veio ele com a bola debaixo do braço.

– Oi, turma, que tal jogar com uma bola de verdade?

Nós estávamos loucos para jogar com a bola dele. Mas não podíamos dar o braço a torcer.

– Olha, Carlos Alberto, você apareça em outra hora. Agora nós precisamos treinar – disse o Catapimba.

– Mas eu quero dar a bola para o time, de verdade! – Nós todos ficamos espantados:

– Ei, você nunca mais vai poder levar a bola embora! – E o que você quer em troca?

– Eu só quero jogar com vocês…

– Viva o Carlos Alberto! – Viva!!!

Então o Carlos Alberto gritou:

– Ei, pessoal, não me chamem de Carlos Alberto! Podem me chamar de Caloca!

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