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Archive for the ‘Esta que vos fala’ Category

Normalmente as coisas funcionam da seguinte maneira:

Você não faz questão de pensar em seja lá qual for o assunto (amigo, namorado, trabalho, dívidas). E não pensa. As coisas se sucedem normalmente, você conversa sobre variados assuntos com variadas pessoas, seus sentidos não são mais ou menos sobrecarregados com informações. As situações ocorrem ao longo do dia e você as trata e absorve normalmente, sem mais nem menos paixão do que seria de se esperar.

Você quer esquecer determinado assunto. Tudo ao seu redor vai gritar e chamar sua atenção como candidatas a animadoras de torcida em testes ou atores disputando o papel do protagonista. Letreiros em néon surgirão apontando as ligações e referências cruzadas (o próprio letreiro em néon pode se tornar uma referência cruzada), seus sentidos estarão alertas a cheiros e sons, a programação da tv vai te lembrar o assunto. O universo parecerá conspirar contra você. E você não vai conseguir dormir. Porque toda hora que você fechar os olhos pensará “Não posso pensar em [insira aqui o tema sobre o qual você não pode pensar]” e automaticamente a enxurrada de informações recebidas durante o dia se repetirá na sua cabeça.

Boa sorte. As coisas não vão melhorar enquanto você fingir não se importar e enquanto não resolver o assunto – seja ele qual for. Mas veja pelo lado bom: quando você morrer, não vai virar tema de programa no Discovery Channel sobre espíritos que ficaram vagando nesse plano. 😉

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Ontem eu vi meu ex-amigo. Acho que ele cortou o cabelo, mas não posso falar nada porque ele resolveu que não é mais meu amigo. E como eu não o vejo há algum tempo, fica difícil dizer se ele cortou o cabelo, se a cabeça cresceu (a clássica piada.. Podemos fazer piadas com ex-amigos?) ou se o cabelo sempre foi desse tamanho e a distância está mudando a perspectiva.
Ah, sim. Vocês não sabem. Agora eu tenho um ex-amigo.

Falei com o Edson há uns bons 5 anos que eu só me afasto definitivamente das pessoas quando elas pedem. No resto das vezes, pode acontecer o stress que for, eu posso ficar chateada o quanto for, mas sempre fica uma fresta aberta pra qualquer eventualidade. Com o Edson mesmo foi assim, e anos depois de contato reduzido a zero, voltamos a nos falar, para logo depois parar novamente. Porque o “já chega” não teve ar definitivo.

Com o ex-amigo foi diferente.

Primeiro porque não teve explicação ou esclarecimento, não teve nada jogado na minha cara (e eu sei que piso na bola bisonhamente com meus amigos, estão aí DaniH, Ju, Guilherme e Max que não me deixam mentir), nenhuma verdade incontestável que me levasse às lagrimas de arrependimento. Nada. Zero. Niente. Null.

Segundo porque foi inesperado, ao menos pra mim, embora exista a possibilidade de eu ter pisado na bola bisonhamente, já que esse tendia a ser meu modus operandi. Ele simplesmente me comunicou que não era mais meu amigo, com direito a um pedido para que eu respeitasse (pedido esse prontamente atendido em reconhecimento à amizade que então se encerrava), e pronto.

Terceiro porque a amizade foi denunciada sem notificação prévia, sem direito a resolução do conflito, sem prazo para correção do erro, sem justificativa, e envolveu uma lista de contatos e comunicações vedadas. Aqui eu poderia invocar o principio da boa fé, mas seria contraditório com toda minha argumentação sobre como nascem os amigos (nós é que os consideramos assim), e então ele tinha todo o direito de denunciar nossa amizade.

É tudo isso que justifica o título “ex-amigo”: a forma, a unilateralidade, o choque. Vocês não têm a menor idéia do quanto dói – fisicamente mesmo – passar por ele e fingir que não o conheço.

Dói, mas eu respeito. E espero que ele não se arrependa da decisão tomada, qualquer que tenha sido o motivo, porque o estrago aqui foi tão grande que provavelmente não teria volta nem que ele quisesse. Sorte que aparentemente ele não se incomodou tanto assim, logo não vai voltar atrás.

Então, ontem eu vi meu ex-amigo. Acho que ele cortou o cabelo, mas não tenho como saber. A fase de barganha dos cinco estágios da dor me faz afirmar que eu não me incomodo o suficiente. E ele provavelmente pensaria que esse post é sobre ele, se ele ainda visitasse meu blog.

Sorte que ele não visita mais. Sorte.

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Lembro que eu tinha perfil em um desses sites de relacionamento, encontro etc. Eu e minha irmã. Ou só ela. Ou só eu. Não sei ao certo. Mas isso foi lá atrás, quando eu não tinha vida social e [música triste de fundo] achava bizarra a ideia de que alguém se interessasse por mim [desliga a música triste de fundo].

O tempo passou, eu arrumei um namorado, depois outro e outro e mais alguns até chegar no atual. E nesse meio tempo eu acho que cancelei os perfis.

Ou achava, porque aparentemente eu criei um novo perfil. No eHarmony, o site que mais junta casais nos Estados Unidos e agora está no Brasil para reproduzir sua história de sucesso.

Recebi até um email deles me parabenizando por dar esse que será o passo decisivo na mudança de vida que eu sempre quis, encontrando a pessoa ideal para mim.

Tenho um perfil no eHarmony?! /o\

Né por nada não, mas to achando que esse meu email tá sendo usado por outra pessoa. Pior: a indivídua em questão não está recebendo nenhuma das notificações sobre os pares ideias que o sistema achou para ela…

Estou nesse exato momento tentando recuperar a senha através do meu email (se existir o perfil no eHarmony, porque OBVIAMENTE eu não cliquei em nenhum dos links disponíveis nos emails em questão) para tentar ajudar a cidadã, coitada.

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Ainda lendo o Acordo Ortográfico, descobri algo que aqueles que alegam ter eu problemas com mesóclise com certeza desconhecem.

Mesóclise é, aparentemente, o nome alternativo do fenômeno, mais conhecido como tmese. Isso mesmo. Tmese. Com t mudo.

tmese: s. f. (gr. tmesis, lat. tmese). Gram. Figura que divide o verbo para lhe intercalar o pronome como em dir-te-ei, dar-lho-ia, etc. Separação de dois elementos de uma palavra, pela intercalação de uma ou várias outras palavras.

Por essas bandas (entenda-se: Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cuz e, no presente momento, Brasil) não usamos esse termo, preferindo a alternativa “mesóclise”. O que explica porque, ao ler o Acordo Ortográfico no trecho relativo ao uso do hífen (sempre ele!), causou-me espanto deparar-me com um tópico específico sobre seu emprego na ênclise, na tmese e com o verbo haver.

Ótima palavra para forca, hein?

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Para quem se preocupa, uma boa notícia: temos até 31 de dezembro desse ano para escrever da forma que aprendemos e só a partir de então essa forma será considerada errada. O detalhe é que em concursos públicos por aí afora já se pede a nova regra e, como falei aqui, se você pretende mandar uma carta/email/telegrama para São Tomé e Príncipe, por favor use a regra nova, porque internacionalmente ela entrou em vigor em janeiro de 2007.

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Dai que hoje estavam comentando sobre a natureza jurídica das musas. Sim, musas. Como Dulcinea, fonte de inspiração de heróis e mocinhos.
Todos precisamos de uma musa. Ou muso. Ou ambos, porque a inspiração é assexuada e, como disse alguém, necessariamente platônica, sob pena de perder sua finalidade. Todo mundo que já tornou a musa algo mais que um ideal, fisicalisando o sentimento, se sentiu um pouco desolado e perdido depois. É uma perda que anos de terapia nao recuperam.
No meu caso, a musa percorreu algumas pessoas do meu convívio. Alguns amigos, inclusive. A materialização – da única vez que ocorreu – matou o que havia de bom. Até hoje me pergunto onde está a pessoa que me fazia sorrir e que me dava atenção; minha suspeita é que tornar a relação física matou o tanto de musa que ele tinha pra mim e o tanto de musa que eu tinha pra ele (quero acreditar que sim, eu o inspirei).
Mas ainda tem o efeito disso sobre as outras pessoas, aquelas que conviviam com a gente antes e durante e agora suportam nossa coexistência pacifica, porém tensa. Difícil apagar o que pode ter sido um erro; difícil falar “Então, vamos fingir que nada aconteceu?”. E olha que isso está alguns bons anos lá atras…
Por isso eu dou a dica: mantenha sua musa platônica. Você corre o risco de perder nao apenas a sua inspiração, mas a si mesmo no processo.

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Natureza jurídica das musas. Alguém se aventura a falar sobre?

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Dai que, de acordo com o Antigo Testamento, Moisés, enviado por Deus para livrar os hebreus do Egito onde eles eram escravos, já estava liderando a multidão em fuga quando chegaram diante do mar. E agora, quem poderá nos proteger? Ó Deus por quê? Senhor, ajudai-nos! etc etc e Moisés fincou o cajado nas águas, que se abriram como por encanto, para que todos passassem.
Uma versão menos divulgada diz que as águas se fecharam bem na hora que os soldados egípcios estavam passando, afogando-os todos. Uma outra versão diz que Moisés era bem informado e que a maré estava baixa: eles apenas foram pontuais na travessia.

Historias ou verdades bíblicas a parte, tem muito motorista que sai por ai achando-se a própria reencarnação de Moisés e querendo reproduzir o feito. Apenas substituem o cajado pela luz indicativa de seta que, além de sinalizar o desejo de mudar de faixa, aparentemente é dotada do atributo da autoexecutoriedade.

Nao, meu querido. Você está enganado. Nao é porque você ligou a seta que o transito irá se abrir e lhe dar passagem. Então olha pelo retrovisor antes de jogar o carro na minha frente, porque meu carro é amarelo mas nao é covarde. E a sua seta nao é o cajado de Moisés. Humpf.

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[Nota: O conhecimento que a autora tem sobre a Bíblia deriva de filmes na 6ª feira santa e no Natal e de aulas na evangelização espirita, onde as duas foram apresentadas para o estudo dos dez mandamentos que viraram dois. Mas isso é papo pra outro post. Logo, nao se atenham a descrição do fato bíblico, mas ao efeito “cajado de Moisés”.]

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De vez em quando eu lembro desse texto. Acho de uma poesia delicada e ao mesmo tempo melancólica. Ou melancolicamente delicada. Ou delicadamente melancólica. E a idéia de termos um destinatário…

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Receita para mal de amor
(Rubem Braga)

Minha querida amiga:

Sim, é para você mesma que estou escrevendo – você que aquela noite disse que estava com vontade de me pedir conselhos, mas tinha vergonha e achava que não valia a pena, e acabou me formulando uma pergunta ingênua:

-Como é que a gente faz para esquecer uma pessoa?

E logo depois me pediu que não pensasse nisso e esquecesse a pergunta, dizendo que achava que tinha bebido um ou dois uísques a mais..

Sei como você está sofrendo, e prefiro lhe responder assim pelas páginas de uma revista – fazendo de conta que me dirijo a um destinatário suposto.

Destinatário, destinatária… Bonita palavra: não devia querer dizer apenas aquele ou aquela a quem se destina uma carta, devia querer dizer também a pessoa que é dona do destino da gente. Joana é minha destinatária. Meu destino está em suas mãos; a ela se destinam meus pensamentos, minha lembranças, o que sinto e o que sou: todo este complexo mais ou menos melancólico e todavia tão veemente de coisas que eu nasci e me tornei.

Se me derem para encher uma fórmula impressa ou uma ficha de hotel eu poderei escrever assim: Procedência – São Paulo; Destino – Joana. Pois é somente para ela que eu marcho. No táxi, no bonde, no avião, na rua, não interessa a direção em que me movo, meu destino é Joana. Que importa saber que jamais chegarei ao meu destino?

Isso eu gostaria de lhe dizer, minha amiga, com a autoridade triste do mais vivido e mais sofrido: amar é um ato de paciência e de humildade; é uma longa devoção. Você me responderá que não é nada disso; que você já chegou ao seu destinatário e foi devolvida como se fosse uma carta com o endereço errado. Que teve alguns dias, algumas horas de felicidade, e por isso agora sofre de maneira insuportável. Então lhe aconselho a comprar um canivete bem amolado e afinar dezoito pedacinhos de pau até ficarem bem pontudos, bem lisos, perfeitamente torneados – e depois deixá-los a um canto. Apanhar uma folha de papel tamanho ofício e enchê-la com o nome de seu amado, escrevendo uma letra bem bonita, de preferência com tinta azul. Em seguida faça com essa folha um aviãozinho, e o jogue pela pela janela. Observe o vôo e a aterrizagem. Depois desça, vá lá fora, apanhe o avião de papel, desdobre a folha novamente (pode passá-la a ferro, para o serviço ficar mais perfeito e não haver mais nenhum indício da construção aeronáutica) e volte a dobrá-la, desta vez ao meio. Dobre outras vezes, até obter o menor retângulo possível. Então, com o canivete, vá cortando as partes dobradas até transformar toda a folha em minúsculos papeizinhos, tão pequenos que o nome de seu amado não deve caber inteiro em nenhum deles. Aí, apanhe todos aqueles pauzinhos que tinha deixado a um canto e, com os pedacinhos de papel, faça uma fogueira com o máximo cuidado até que restem somente cinzas. A seguir poderá repetir a operação…

-Adianta alguma coisa?

Por favor, querida amiga, não me faça esta pergunta. Nada adianta coisa alguma, a não ser o tempo; e fazer fogueirinhas é um meio tão bom quanto qualquer outro de passar o tempo.

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