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Archive for the ‘Visitante’ Category

Geração Sapatenis

Eu não poderia ter dito melhor.

Geração Sapatenis.

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De vez em quando eu lembro desse texto. Acho de uma poesia delicada e ao mesmo tempo melancólica. Ou melancolicamente delicada. Ou delicadamente melancólica. E a idéia de termos um destinatário…

***

Receita para mal de amor
(Rubem Braga)

Minha querida amiga:

Sim, é para você mesma que estou escrevendo – você que aquela noite disse que estava com vontade de me pedir conselhos, mas tinha vergonha e achava que não valia a pena, e acabou me formulando uma pergunta ingênua:

-Como é que a gente faz para esquecer uma pessoa?

E logo depois me pediu que não pensasse nisso e esquecesse a pergunta, dizendo que achava que tinha bebido um ou dois uísques a mais..

Sei como você está sofrendo, e prefiro lhe responder assim pelas páginas de uma revista – fazendo de conta que me dirijo a um destinatário suposto.

Destinatário, destinatária… Bonita palavra: não devia querer dizer apenas aquele ou aquela a quem se destina uma carta, devia querer dizer também a pessoa que é dona do destino da gente. Joana é minha destinatária. Meu destino está em suas mãos; a ela se destinam meus pensamentos, minha lembranças, o que sinto e o que sou: todo este complexo mais ou menos melancólico e todavia tão veemente de coisas que eu nasci e me tornei.

Se me derem para encher uma fórmula impressa ou uma ficha de hotel eu poderei escrever assim: Procedência – São Paulo; Destino – Joana. Pois é somente para ela que eu marcho. No táxi, no bonde, no avião, na rua, não interessa a direção em que me movo, meu destino é Joana. Que importa saber que jamais chegarei ao meu destino?

Isso eu gostaria de lhe dizer, minha amiga, com a autoridade triste do mais vivido e mais sofrido: amar é um ato de paciência e de humildade; é uma longa devoção. Você me responderá que não é nada disso; que você já chegou ao seu destinatário e foi devolvida como se fosse uma carta com o endereço errado. Que teve alguns dias, algumas horas de felicidade, e por isso agora sofre de maneira insuportável. Então lhe aconselho a comprar um canivete bem amolado e afinar dezoito pedacinhos de pau até ficarem bem pontudos, bem lisos, perfeitamente torneados – e depois deixá-los a um canto. Apanhar uma folha de papel tamanho ofício e enchê-la com o nome de seu amado, escrevendo uma letra bem bonita, de preferência com tinta azul. Em seguida faça com essa folha um aviãozinho, e o jogue pela pela janela. Observe o vôo e a aterrizagem. Depois desça, vá lá fora, apanhe o avião de papel, desdobre a folha novamente (pode passá-la a ferro, para o serviço ficar mais perfeito e não haver mais nenhum indício da construção aeronáutica) e volte a dobrá-la, desta vez ao meio. Dobre outras vezes, até obter o menor retângulo possível. Então, com o canivete, vá cortando as partes dobradas até transformar toda a folha em minúsculos papeizinhos, tão pequenos que o nome de seu amado não deve caber inteiro em nenhum deles. Aí, apanhe todos aqueles pauzinhos que tinha deixado a um canto e, com os pedacinhos de papel, faça uma fogueira com o máximo cuidado até que restem somente cinzas. A seguir poderá repetir a operação…

-Adianta alguma coisa?

Por favor, querida amiga, não me faça esta pergunta. Nada adianta coisa alguma, a não ser o tempo; e fazer fogueirinhas é um meio tão bom quanto qualquer outro de passar o tempo.

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Cora Rónai (que deveria abrir uma área no blog apenas para explicar como se pronuncia seu sobrenome) publicou na 2a feira dessa semana um post lindo. Admito ter ficado emocionada quando li – fui salva pelos óculos escuros, que me protegeram dos olhares dentro do táxi-lotada no caminho pro trabalho. E ao ler seu post, lembrei de outras tantas pessoas com histórias semelhantes e anônimas que passam pela vida ajudando o próximo sem nenhum interesse pessoal. Em comum entre elas, a revolta com alguma situação e a consciência de que uma andorinha sozinha não faz verão (até porque o verão é uma fatalidade – mais cedo ou mais tarde, ele chega), mas pelo menos avisa os vizinhos e dá uma sacudida na vergonha alheia.

Confesso que sou o tipo chacoalhado pela vergonha. Minha contribuição com qualquer gesto altruísta costuma ser justificada pelo pensamento “Cara, se ela, [encaixe aqui a condição que em tese tiraria da pessoa em questão a habilidade de fazer algo pelo próximo ou que justificaria o não-fazer], consegue, eu tenho que tomar vergonha na cara e fazer alguma coisa”.

Daí porque eu fico emocionada quando vejo que alguém foi chacoalhado pelo seu dia-a-dia, saiu do lugar comum e se encontrou ao encontrar o próximo. Piegas, mas emocionante. Peguem o lencinho de papel.

O árduo caminho do bem.

***

A gente já convive com tanta tragédia que eu estou pensando em abrir uma seção (mensal, semanal, quinzenal) para dar notícias boas. Aquelas notícias que fazem a gente ficar satisfeito em ter nascido ser humano, e não pedra.
[Sim, eu conheço a contradição em “nascer pedra”. É exatamente esse meu ponto.]

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Difícil encontrar pessoas que gostem de ler e de escrever. Mais difícil ainda encontrar pessoas que escrevam de forma enlouquecida e que consigam fazer fluir para as palavras sua própria personalidade. A internet deixou a maioria de nós mudos, meros receptores de informação, perdidos de nossas capacidades criativas, evolutivas, desenhativas e redatoras.

Acho que com o tempo grande parte das pessoas deixou-se paparicar pelo computador. Não eu. E foi grata a surpresa de encontrar outros que, como eu, ainda se deslumbram com coisas simples e ainda conseguem dividir essas coisas simples com os demais, com uma delicadeza, um exagero, uma paixão e uma peculiaridade únicas. Esses outros, felizmente, tratam as palavras com tanto cuidado quanto eu – a palavra escrita, a palavra lida, a palavra ouvida, a palavra falada. E percebe-se esse cuidado.

Sou diariamente brindada com visões únicas e reações únicas para um mesmo assunto, proveniente de diversos cantos do meu mundinho particular – parte dos cantos encontra-se em um raio de um quilômetro durante boa parte do dia, o que faz de mim ainda mais privilegiada.

Eles não são meus pares, na verdade. São meus ímpares.

E é para vocês – que, felizmente, eu não preciso nomear – que eu mando esse poema, encontrado num passeio pelo Objetivando Disponibilizar.

“Não fechar a frase, não.
Deixar a palavra ao relento.
Pensar as coisas de perto,
suar a imaginação.

Amar à solta a emoção
por baixo do pensamento.
Poesia é conjugação
de sentir, em qualquer tempo.”

(Miguel Marvilla)

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Sempre gostei da sensação de ser conhecida. Os tímidos têm um quê exibicionista, uma vontade incontrolável de aparecer, ainda que momentaneamente, apenas para poderem se esconder da multidão. Essa vontade se manifesta em toda sua plenitude quando alguém – qualquer um – identifica um traço da minha personalidade e o apresenta.

Foi assim hoje, quando eu recebi um email do Leando com o seguinte teor:

Esse blog é muito maneiro, acho que é um pouco a sua cara:

http://sublimesucubus.blogspot.com/2010/02/me-viola-todinha.html

Ele tinha razão. Esse blog é a minha cara.
Fora a satisfação de ser reconhecida pelo Leandro enquanto ele lia um blog, fica a satisfação de reconhecer-me nos escritos de Carrie, a Estranha, de quem far-me-ei leitora e admiradora.

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Há um tempo o David relegou o blog dele aos visitantes fiéis, simplesmente não o atualizando.
Depois dessa fase de balanço (necessário em todo blog e pela qual esta que vos fala já passou algumas vezes), o Vala Comum retorna. E eu recomendo não só os posts com a terrível veia crítica do autor, como também – e principalmente – os dois últimos poemas.

Irresistível relembrar:

O poeta está vivo
Com seus moinhos de vento
A impulsionar
A grande roda da história…

(…)

O poeta não morreu
Foi ao inferno e voltou
Conheceu os jardins do Éden
E nos contou…

Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de ventos…

Bem vindo de volta, poeta. 🙂

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Em Alagoinhas, Pernambuco, uma menina de nove anos de idade foi estuprada pelo padrasto e ficou grávida, de gêmeos. Realizado o aborto em razão do risco que a gestação representava para a mãe (uma menina de nove anos!), e também porque a gravidez resultou de estupro, conforme permite o artigo 128, incisos I e II do Código Penal, a Igreja, por meio do Arcebispo de Olinda e Recife, excomunhou os médicos que realizaram a intervenção, a menina e a mãe dela, que consentiu com o aborto.

Nada fizeram contra o animal que a estuprou.

O arcebispo alegou que a lei humana, que autoriza a morte, é contrária à de Deus, que não a admite em nenhuma circunstância. Por isso eles, que a violaram, não podem mais pertencer à Igreja Católica Apostólica Romana.

O estuprador? Ele não violou a lei de Deus, segundo a Igreja. O que que tem ele ter estuprado uma criança de 9 anos, filha de sua esposa (provavelmente vão sustentar que ela, encarnação do capeta, o provocou)? Qual o problema se ela engravidou? E daí que ela vai ter sequelas emocionais para o resto da vida? Ele merece permanecer no seio da Igreja, ao contrário daqueles hereges, que interromperam uma gravidez decorrente de um crime praticado contra uma criança.

O arcebispo de Olinda e Recife deu uma demonstração incontestável de falta de amor, de sensibilidade e de caridade com uma menina de nove anos que vítima de um criime ardiloso e brutal, cometidio por quem se supunha garantidor de sua integridade física e psicológica, o padrasto, e mostrou estar totalmente afastado da realidade social de comunidades carentes não só de Pernambuco, mas do Brasil todo. No seu mundo perfeito, cercado pelos muros da Igreja, o aborto realizado em uma menina de nove anos grávida de gêmeos porque foi estuprada pelo padrasto é realmente uma pouca vergonha.

Só me resta pedir perdão a Deus por eles, que não sabem mesmo o que fazem, e o envergonham com esse apego arraigado à dogmática antolhada da Igreja, a mesma Igreja que Jesus, através de Pedro, fundou para orientar e salvar o Homem e que hoje, mais do que nunca, encontra-se irreversivelmente afastada da mensagem de Cristo e do coração dos fiéis.

O inferno é aqui.

Eduardo

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Lembro-me que quando eu li a notícia da excomunhão pensei exatamente a mesma coisa. Fiquei ainda mais chocada quando li que o Vaticano aprovou a decisão do arcebispo. Tão chocada que não consegui escrever nada sobre o assunto, motivo que justifica o “ctrl+c ctrl+v” aí em cima.

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