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O legal nas músicas compostas na época a Ditadura/Revolução/Contrarrevolução (dependendo de sua filiação filosófico-político-partidária) é tudo que fica dito nas entrelinhas, subentendido, deixado a cargo da interpretação.

A  música dessa 2a encaixa-se nesse padrão, como tantas outras escritas pelo Chico Buarque, mas os versos “Apesar de você / amanhã há de ser outro dia” servem para diferentes situações, contextos, momentos. E eu escrevo esse post com um sorriso no rosto por saber que, no fundo, não chega a ser uma ameaça, mas uma constatação: o tempo passa e algumas coisas são inevitáveis.

[Dessa vez, sem vídeo, porque não quero contaminar a letra com imagens políticas e prefiro deixar a cargo de cada um de vocês enxergar o “você” de sua preferência, porque, meus caros, amanhã há de ser outro dia.]

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Apesar de você (Chico Buarque)

(Amanhã vai ser outro dia…)

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu?
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro!
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa!

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente?

Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
La, laiá, la laiá, la laiá

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joinha 2013Retomamos o Prêmio Joinha em graaaaande estilo, graças a contribuição de nossa colaboradora Dani S. e da minha, da sua, da nossa deputada estadual Myriam Rios.

Daí que Myriam Rios estava bolada. Boladíssima. Tanto que em 2011 soltou essa pérola:

[O] direito que a babá tem de se manifestar da orientação sexual dela como lésbica, eu tenho como mãe, de não querê-la na minha casa, para ser babá das minhas filhas. Me dá licença? São os mesmo direitos. Com essa PEC, eu vou ter que manter a babá na minha casa, cuidando das minhas meninas, e sabe Deus, se ela inclusive não vai cometer a pedofilia com elas. E eu não vou poder fazer nada. Eu não vou poder demiti-la.

Mas engana-se quem pensa que essa foi sua primeira manifestação em defesa da moral e dos bons costumes. Ela já tinha, como boa legisladora, ciente de sua competência (= atribuição), apresentado um projeto de lei, em junho de 2011, com a seguinte justificativa:

Infelizmente, a sociedade de uma maneira geral vem cada dia mais se desvencilhando dos valores morais, sociais, éticos e espirituais. Valores esses que são de extrema importância para que nossa sociedade caminhe para o crescimento.

Sem esse tipo de valor, tudo é permitido, se perde o conceito do bom e ruim, do certo e errado. Perde-se o critério do que se pode e deve fazer ou o que não se pode. Estamos vivendo em um mundo onde o egoísmo e a ganância são predominante.

Na busca de um mundo melhor o programa, descrito nesse projeto, objetiva formular proposta de ações educativas e sugestivas, direcionadas a criança, jovens e adultos despertando uma grande mudança na sociedade fluminense.

Diante dessa realidade, a criação do programa supracitado, que tem como objetivo principal conscientizar e reinserir valores de suma importância para que possamos construir um futuro melhor, onde haja principalmente respeito pelo próximo.

Sim, sim, deputada. Moral e bons costumes. Reinserir valores morais, sociais, éticos e espirituais. Um programa estimulado pelo Estado, para acabar com o egoísmo e a ganância e o capitalismo e o fascismo e o que mais mesmo que tá na moda no discurso? [Eu sou da época do FORA COLLOR FORA FMI FORA FHC SIM À MORATÓRIA… Estou desatualizada…]

Você está preocupado com a decadência da sociedade? Teme pelo futuro dos seus filhos? Acha que o estado brasileiro possui valores incompatíveis com a moral e os bons costumes? Tem percebido uma queda nos padrões sociais e acha que cabe ao Estado intervir? Pois não tema! É para você a Lei estadual nº 6394/13, devidamente sancionada pelo Governador e que parece ter feito o secretário estadual de Assitência Social e Direitos Humanos engasgar com o cafezinho que tomava…

Com vocês, o “Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais”. Obrigada a todos os envolvidos e vamos todos acompanhar.

***

Lei Nº 6394 DE 16/01/2013 (Estadual – Rio de Janeiro)

Data D.O.: 17/01/2013

Institui o “Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais” no ambito do Estado do Rio de Janeiro.

O Governador do Estado do Rio de Janeiro

Faço saber que a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º. Fica instituído o “Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais” no âmbito do Estado Rio de Janeiro.

Parágrafo único. O Programa deverá envolver diretamente a comunidade escolar, a família, lideranças comunitárias, empresas públicas e privadas, meios de comunicação, autoridades locais e estaduais e as organizações não governamentais e comunidades religiosas, por meio de atividades culturais, esportivas, literárias, mídia, entre outras, que visem a reflexão sobre a necessidade da revisão sobre os valores morais, sociais, éticos e espirituais

Art. 2º. O Poder Executivo deverá firmar convênios e parcerias articuladas e significativas, com prefeituras municipais e sociedade civil, no sentido de possibilitar a execução do cumprimento ao disposto nesta Lei, com os seguintes objetivos:

I – promover o resgate da cidadania;

II – fortalecer as relações humanas;

III – valorizar a família, a escola e a comunidade como um todo.

Parágrafo único. Serão desenvolvidas ações essenciais que contribuam para uma convivência saudável entre pessoas, estabelecendo relações de confiança e respeito mutuo, alicerçada em valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais, como instrumento capaz de prevenir e combater diversas formas de violência.

Art. 3º. O programa disposto no caput do Artigo 1º terá como órgão gestor a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos.

Art. 4º. As despesas decorrentes da execução desta Lei correrão por conta de dotações orçamentárias próprias, suplementadas, se necessário.

Art. 5º. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 2013

SÉRGIO CABRAL

Governador

Projeto de Lei nº 573 A/11

Autoria da Deputada: Myrian Rios

Amigo terminou relacionamento há pouco tempo. [Aliás, estamos em uma onda de términos de relacionamento que eu se fosse vocês me segurava por aí antes de ser levada junto.]

Términos de relacionamento nos fazem retomar os autoquestionamentos filosóficos típicos das tardes de domingo: quem sou? de onde vi? pra onde vou? Chega uma hora que a gente tanto se acostuma com o ajuste fino feito com a cara-metade que não mais se sabe se a gente não come chocolate amargo porque não gosta ou porque a outra pessoa não gosta. Ao término do meu casamento, percebi que eu comia bem menos carne por causa de ex-marido vegetariano, pra não ter que cozinhar dois pratos, mas identificar o motivador levou uns bons 3 meses – quando então eu me libertei, comprei uns filés e fiz na chapa pra acompanhar batatas assadas com alecrim [nham!].

É uma fase de redescoberta, de reconhecimento, de reconstrução. Você tem que avaliar tudo que acrescentou e que deixou de lado em função do relacionamento – não pra voltar ao status quo ante, mas pra ver que alterações feitas em função da outra pessoa devem ser incorporadas permanentemente. E esse trabalho é cansativo, complicado, doloroso, cheio de lembranças, de saudade, de mágoa, mas deve ser feito. E sozinho.

Daí que amigo comentou precisar ficar sozinho, aprender a ficar sozinho. No meio tempo, acho [eu acho, ele não falou isso] que ele vai praticar a máxima “solteiro sempre, sozinho nunca”.

Com vocês, Roberta Sá.

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Cicatrizes

Amor que nunca cicatriza
Ao menos ameniza a dor
Que a vida não amenizou
Que a vida a dor domina
Arrasa e arruína
Depois passa por cima a dor
Em busca de outro amor
Acho que estou pedindo uma coisa normal
Felicidade é um bem natural
Uma, qualquer uma
Que pelo menos dure enquanto é carnaval
Apenas uma
Qualquer uma
Não faça bem
Mas que também não faça mal
Meu coração precisa
Ao menos ameniza a dor
Que a vida não amenizou
Que a vida dor domina
Arrasa e arruína
Depois passa por cima a dor
Em busca de outro amor
Acho que estou pedindo uma coisa normal
Felicidade é um bem natural
Uma, qualquer uma
Que pelo menos dure enquanto é carnaval
Apenas uma
Qualquer uma
Não faça bem
Mas que também não faça mal…

Blá blá, muito tempo sem postar, blá blá, vou tentar publicar com mais frequência, blá blá.

Sou advogada, blá blá, licenciamento de software, blá blá, em inglês, blá blá, grandes empresas, blá blá.

Ok, todos já sabem. Mas isso aqui é sempre uma novidade:

“Customer acknowledges that the Software is not designed or intended for use in the design, construction, operation, control or maintenance of any nuclear facility, and Customer hereby waive any liability against Company for an losses, claims or liability related thereto.”

Então, cliente querido, se você pretendia aproveitar que estava licenciando o software pra fazer aquele projeto bacana de uma usina de energia nuclear naquele pedacinho de terreno que você não sabe bem pra que vai usar, faz isso não, tá? Como diria a filha de um amigo, “Não pódji!”

Faz a gente se perguntar que tipo de indivíduo pega um software, usa pra uma finalidade totalmente diferente daquela pra qual ele foi obviamente desenvolvido, processa o desenvolvedor e dá tanta dor de cabeça a ponto de o Jurídico se sentir na obrigação de colocar um disclaimer como esse aí. Seria mais ou menos como usar o Paint para fazer um projeto de construção de uma plataforma de petróleo, processar a Microsoft pelas falhas no projeto e ganhar.

***

[Estava quase pesquisando o nominho da empresa em questão associado a “nuclear facility” quando lembrei que essa não é a primeira ocasião em que eu vejo um contrato com esse disclaimer específico. Tem gente por aí construindo usinas nucleares assim, sem usar os softwares adequados? Hum… Preocupante.]

Apple tomou outra chapuletada hoje na Europa naquela clássica briga “você copiou meu design depositado e agora você tem que parar de vender o seu produto”.

E agora ela vai ter que publicar em seu site um link “Samsung/Apple UK Judgement” direcionado à decisão da Corte (válida para a toda a União Européia).

Vai um curativo aí?

Na decisão unânime do colegiado formado por três juízes, a apelação da Apple foi indeferida, o tribunal alemão que concedeu uma cautelar para a Apple foi avacalhado no estilo “data maxima venia” e é possível ouvir as gargalhadas dos advogados da Samsung.

Recomendo a leitura (aqui, via Consultor Jurídico), mas destaco o ponto em que o juiz fala sobre a necessidade de a Apple publicar a decisão em seu site, depois do furdunço que ela própria causou entrando com ações em diversos países e interpretando de forma equivocada a decisão anterior (e depois de argumentar que a publicidade era necessária para “dispel commercial uncertainty”:

Of course our decision fully understood actually lifts the fog that the cloud of litigation concerning the alleged infringement of the Apple registered design by the Samsung Galaxy 10.1, 8.9 and 7.7 tablets must have created. And doubtless the decision will be widely publicised. But media reports now, given the uncertainty created by the conflicting reports of the past, are not enough. Another lot of media reports, reporting more or less accurately that Samsung have not only finally won but been vindicated on appeal may not be enough to disperse all the fog. It is now necessary to make assurance doubly so. Apple itself must (having created the confusion) make the position clear: that it acknowledges that the court has decided that these Samsung products do not infringe its registered design. The acknowledgement must come from the horse’s mouth. Nothing short of that will be sure to do the job completely.

Ouch.

[Ok, ok. Eu sei que a música é de 2a e hoje é 3a, mas eu não podia perder o gancho.]

Stevie Wonder deve fazer show no Rio no final do ano, um daqueles megaeventos nas festas (Natal, provavelmente) que lotam a praia e transformam a vida de quem mora em Copacabana e arredores em um caos. Mas é o Stevie Wonder. O cara que compõe músicas como a que hoje ilustra esse blog.

Música aqui, video logo embaixo e as letras em sequência. Com vocês, Overjoyed.

Overjoyed (Stevie Wonder)

Over time
I’ve been building my castle of love
Just for two
Though you never knew you were my reason

I”ve gone much too far for you now to say
That I’ve got to throw my castle away

Over dreams
I have picked out a perfect come true
Though you never knew it was of you I’ve been dreaming

The sandman has come from too far away
For you to say “Come back some other day”

And though you don’t believe that they do
They do come true
For did my dreams
Come true when I looked at you
And maybe too if you would believe
You too might be
Overjoyed
Over love
Over me

Over hearts
I have painfully turned every stone
Just to find I have found what I’ve searched to discover

I come much too far for me now to find
The love that I sought can never be mine

And though you don’t believe that they do
They do come true
For did my dreams
Come true when I looked at you
And maybe too if you would believe
You too might be
Overjoyed
Over love
Over me

And though the odds say “Improbable!”
What do they know?
For in romance
All true love needs is a chance
And maybe with a chance you will find
You too like I
Overjoyed
Over love
Over you

Over you

===

UPDATE: Grooveshark fora do ar por enquanto. Assim que ele retornar, incluo o link pro áudio.

Mau exemplo

Há um tempo postei aqui um ótimo texto que falava sobre a nova geração que está sendo criada por pais no mundo todo, batizada pelo autor como “Geração Sapatênis“.

Pois ontem, lamentavelmente, eu presenciei uma cena que ilustra bem essa situação e sua origem.

Fui com Rimã, Cunhado e Primeira Sobrinha asistir o fofíssimo show do Palavra Cantada (aliás, Leandro, recomendo as músicas deles, que eu acho bem mais legais que a Galinha Pintadinha).

Como todo show, tinha banda de abertura. Tratando-se de show infantil, a banda de abertura foi um grupo infantil. Todas as informações sobre a abertura dos portões (15h), a banda de abertura e o começo do show do Palavra Cantada (17h30) constavam religiosamente do site da Fundição Progresso, onde ele aconteceu e para o qual o próprio site do Palavra Cantada redirecionava quem quisesse mais informações sobre o evento.

Você, pai de dois filhos entre 4 e 7 anos, sabendo que criança não fica parada muito tempo e se entedia com facilidade, procuraria todas as informações sobre o evento, correto? Veria o set list, buscaria referências, se informaria sobre a banda de abertura, sobre os horários, sobre o local, certo? Se você percebesse que as informações nos sites não eram suficientes, você ligaria, perguntaria no twitter, no facebook, enfim. Você correria atrás, para não transformar um programa divertido em um programa de índio quando seus filhos começassem a se entediar, te entediando também.

Então, acredito que isso seja premissa de qualquer show. Você precisa fazer a due dilligence necessária, até pra saber se vale a pena gastar seu rico dinheirinho ou se é mais interessante comprar o dvd depois (ou esperar passar na tv, ou nem isso).

Daí o cidadão aparece no show com os dois filhos e a senhora dele. A banda de abertura começa a se apresentar por volta de 15h40 e lá pelas 16h45 o cidadão acha por bem começar a gritar “PALAVRA CANTADA! PALAVRA CANTADA!”, acompanhado das vaias da senhora dele.

Avaliem. O cidadão é pai de duas crianças. As duas crianças estão no colo dele. O evento ainda está no horário, pois ainda nem deu 17h e o show do Palavra Cantada começaria às 17h30 (de fato, começou com meros CINCO minutos de atraso).

Que tipo de mensagem o cidadão está passando para seus filhos? Que tipo de imagem ele está passando para os demais?

Naquele momento eu vi quem são os pais da Geração Sapatênis.

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Querido cidadão que estava no evento de ontem na Fundição Progresso com seus dois filhos e sua senhora,
Se você não gosta da banda de abertura e não tem senso de humor para superá-la, você tem algumas opções:

a) Se você não se preocupar com o risco de ficar com os piores lugares da plateia, não chegue no horário de abertura dos portões.
b) Se for possível guardar o lugar com seus pertences, passeie pelo local de realização do evento, faça um reconhecimento das saídas de emergência, vá ao banheiro, compre água/comida/bala/chiclete.
c) Se o risco de não conseguir segurar o bom lugar for real, coloque fone de ouvido e durma, leia, brinque com o celular, bata papo com os vizinhos.

Faça o que fizer, não deseduque os coleguinhas do lado. E tente (pelamordedeus) não levar a Geração Sapatênis pra dentro da sua casa. Porque, meu caro, você vai sofrer.

Beijos,

Sarita

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Última observação: o show deles é SENSACIONAL.