Quando eu vim pro meu atual emprego acabei parando na área que cuida das contratações envolvendo tecnologia. Seja com transferência de tecnologia – desenvolvida aqui – seja obtendo essas tecnologias no mercado, seja protegendo essas tecnologias. Nunca pensei que fosse aprender tanto sobre uma empresa – e sobre o mercado – atuando como assessoria jurídica de uma área de apoio. Aprende-se, sim, e muito.
O mais interessante é que, divisões internas feitas, este setor no qual eu trabalhava acabou dando origem a outros 2 ou 3 (não lembro direito). E eu acabei parando na área de TI. Anos e anos lutando contra o windows 98 1a edição (argh!), formatando hd uma vez por semana, comprando placa-mãe, mudando pente de memória, flat cable e outras coisas, reinstalando driver disso e driver daquilo, resolvendo problema de conexão, e eu me vi como advogada responsável por atender exatamente a TI.
Hardware é o que você chuta, software é o que você xinga.
Quem trabalha com computador sabe que ainda que o mundo da programação possa ser resumido a preto-ou-branco, 0-ou-1, ligado-ou-desligado, o mundo do usuário é beeeeeem mais colorido. Tudo bem que os homens dizem enxergar no máximo 16 cores (um amigo meu afirma enxergar bem menos que isso), mas ainda assim é consideravelmente mais do que as duas opções possíveis. Complicado você ser um analista e, ao mesmo tempo, ser obrigado a lidar com o usuário que quer “o programa X porque nele a aba abre do lado direito e no outro abre no lado esquerdo e eu sou destro, então abrir na direita é melhor“. Complicado você ser um advogado tentando explicar pro camarada analista de sistemas que, se ele não colocar no contrato e-xa-ta-men-te o que ele quer, ele depois não vai poder cobrar. “Mas caramba, a gente tem uma relação tão boa com essa empresa!“
Se no mundinho formado pelas cabecinhas dos usuários finais já é assim, imagine se todas essas cabecinhas puderem se encontrar, conversar, bater papo, trocar idéias sobre os lados onde as janelas abrem e sobre como ver em High Color mudou a percepção deles?
Isso é a internet para o advogado em uma empresa. Muitas e muitas pessoas podendo falar o que quiserem e bem entenderem despreocupadamente (o anonimado é relativamente fácil de conseguir ou, se não for possível, existem as zonas neutras onde se pode falar o que bem entender porque o dono do pedaço simplesmente não se importa), em alto e bom som, com um poder multiplicador absurdo…
Vamos a um exemplo simples: esse blog que vos fala.
Eu não sou famosa, não trato de assuntos necessariamente polêmicos, às vezes sou bastante enfadonha, não atualizo com frequência e – admitamos – a qualidade dos meus posts e comentários não é tão grande assim pra que eu tenha uma legião de desconhecidos admiradores. Ainda assim, surpreendentemente, um dia nesse mês as pessoas entraram no meu blog 109 vezes. Ele foi acessado 109 vezes! Por quem? Não sei. Pra ler o quê? Não faço idéia.
Tivesse eu escrito algo com capacidade de propagação em PG, tudo estaria mudado e meu blog estaria sendo citado no Globo online como fonte (fidedigna ou inverídica) de informações (reais ou inventadas). O fato de ele estar sendo citado pioraria tudo e os 109 hits passariam a 109 mil e daí a 1,09 milhão. Tudo por quê? Porque um dia eu escrevi algo com capacidade de propagação.
E daí? E daí que regulamentar a internet é uma loucura. Ao menos do jeito que nós entendemos a regulamentação de qualquer coisa (criar normas ideais, impor normas ideias, alterar normas ideais porque nossos ideais estavam errados, impor as normas ainda menos ideais, descobrir que as normas nãoe stão sendo cumpridas, deixar as normas ideais ainda mais rígidas etc).
A internet é uma multidão. E multidão não pensa individualmente, nem pensa coletivamente. A multidão não pensa. “Uma multidão não é a soma de seus indivíduos. Parece-se mais com uma espécie de animal, sem linguagem ou consciência real, que nasce quando eles se encontram e morre quando se vão.”, disse Gene Wolfe. Ele tem razão. E a internet é a pior das multidões: seus indivíduos vêm e vão com muito mais velocidade, muito mais facilidade e muito menos noção do que as multidões que, em manifestações, temem a polícia como “poder público armado e legítimo” (ainda que temida mais pelas armas do que pela legitimidade).
Procurem saber sobre os chamados “crimes de multidão”. Leitura bastante interessante.
A internet é como o pensamento de uma multidão. Se a multidão já é virtualmente incontrolável (exceto por outra multidão ou armas de destruição em massa), imaginem os pensamentos ali presentes.
Vocês realmente acham que criar um regulamento sob a forma de lei funcionaria? de verdade?
Por que a pedofilia na internet consegue ser tão combatida e outros crimes (difamação, calúnia, ameaça), praticados no mesmo ambiente, não? Porque todos têm, tiveram, terão ou conhecem quem tem filhos. Simples. “Eu reclamo porque a probabilidade de acontecer comigo é grande. Como eu não quero que aconteça, eu ajudo a vigiar, eu ajudo a combater, eu denuncio.“
Não adianta. A internet será auto-regulamentada. Isto é fato.



Post loooooooongo e ótimo.
Como sempre né dona Sá?
Concordo com vc.
Do joelho ralado à regulamentação da internet. Por acaso vossa senhoria tb traz a pessoa amada em 3 dias?
Por hora ela não traz, mas em breve trará, hehehe…
(piada ultrainterna) (é assim que se escreve agora?)
Ela não traz a pessoa amada…mas encontra o par perfeito!! (outra das internas né Sá?)