Continuo achando o domingo o pior dia da semana.
É o dia em que você repensa a sua vida, em que você se dá conta de como o final de semana é pequeno e como a tv aberta contribui para a sensação de solidão.
Então, no melhor estilo “ninguém entede o que eu digo e o domingo é o dia em que isso fica mais claro”, vou começar a me livrar dos meus textos. E por “me livrar” entendam “sujeitar vocês, meus 3 leitores fiéis”, a um teste de resistência.
Segue o primeiro.
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Fechou os olhos sem olhar antes para os lados. A noite tinha um cheiro diferente àquela hora, enquanto escapava de poças e sorria, cabeça voltada para o alto, gotas de chuva molhando seu rosto. O cheiro da expectativa. O cheiro do medo.
Andava rápido, mas não para chegar mais cedo. Andava rápido para evitar falar, para evitar pensar, as gotas de chuva distraindo-a, ele andando a seu lado, tão rápido quanto ela, tão calado quanto ela.
“Olha, eu vou aproveitar que estamos sozinhos e que está escuro, chovendo e de noite, porque assim nós dois teremos boas desculpas para voltar para casa e fingir que eu não falei nada. Eu gosto de você e você sabe disso, então vamos parar com isso e ao menos admitir que nós dois sambemos.”
Respirou fundo, olhou para o lado. Ele ainda estava lá, ainda pulava poças d’água a seu lado, ainda sorria quando ela se desequilibrava. Ele sorria.
“E afinal o que você quer?”
As frases ainda ecoavam em sua mente quando os dois saíram do cinema. Sentada a seu lado, tentara falar, tentara contar, tentara explicar. Não conseguira. Apenas se aproximara dele, com cuidado, gentilmente, os minutos passando e ela conhecendo cada detalhe da vida dele, cada pedaço que ele escondera por tanto tempo.
“Obrigada.” Obrigada. É tudo o que consegue dizer, depois de tanto tempo, tanto ensaio. Ele, ainda sorrindo, abraça-a na despedida.
“Até a próxima. Quando chegar em casa me liga.” Até a próxima e um sorriso. Melhor do que café da manhã. Isso pode querer dizer alguma coisa. Mas por enquanto significa mais algumas horas de alegria, seguidas por alguns muitos dias de mais ensaio, mais frases, mais sorrisos.
Algumas coisas nunca mudam. Outras simplesmente ficam piores, mais dolorosas, e ainda assim inesquecíveis.


