Minha mais recente aquisição foi o livro “O andar do bêbado“, escrito por Leonard Mlodinow.
O nome, nada ortodoxo, ilustra o tema, explicitado no subtítulo: “como o acaso determina nossas vidas”.
Pois bem, depois de alguns debates interessantes, o autor chega a uma conclusão à qual esta pobre mortal já havia chegado mais de forma empírica do que com dados: a de que todo ser humano é levado a buscar as idéias que suportam sua teoria, e não a buscar em igualdade de condições idéias favoráveis e contrárias de forma a ter um horizonte compatível com a realidade e a, por enquanto, ao menos, saber se sua teoria se sustenta ou não.
O homem não convive com a incerteza (o André é uma prova concreta dessa afirmação): diante da incerteza ele busca padrões de comportamento, qualquer coisa que racionalize o acaso, o aleatório. Mas ele está lá. E nossa tentativa frustrada de explicar o acaso nos torna reféns de um padrão que sequer existe.
O conhecido “efeito borboleta” originou-se de um acaso – um meteorologista tentando prever o futuro, alimentou um computador com dados do passado (uma das nossas táticas pra acabar com o acaso consiste em usar o passado para determinar o futuro) e, buscando estender essa análise alguns anos a frente, pegou a resposta e alimentou o computador com ela, ao invés de reinserir os dados. Resultado: o computador deu uma análise totalmente diferente. E lá foi Edward Lorenz (era esse o nome do cara) pesquisar o motivo. Simples: a resposta que o computador tinha gerado possuía muitas casas decimais, enquanto a resposta que o computador tinha imprimido (e que ele usara para a nova aálise) possuía apenas 3. Daí a história do efeito borboleta: uma mudançazinha de nada pode causar um efeito devastador.
E é verdade. Se a gente pensar quanta coisa na nossa vida poderia ter sido diferente se tivéssemos saído de casa 5min antes ou depois, se tivéssemos ido de carro ao invés de pegar o metrô, se tivéssemos comprado um livro e não o outro, se tivéssemos viajado sozinhos e não com os amigos, se, se, se. As variáveis são muitas, e é por isso que nunca conseguiremos fugir do acaso.
Todo ser humano é preconceituoso por natureza, e esse preconceito deriva de nossa inaptidão para as novidades, nossa inabilidade pra lidar com as muitas variáveis. Até porque – e essa análise é apresentada no livro – é muito fácil olhar pra trás e ver onde erramos, mas prever esse erro, ou seja, olhar pra frente e não errar, não é tão fácil assim. É por isso que sempre vamos procurar as correntes que sustentam a nossa teoria ou, ainda que procuremos outras, sempre daremos mais valor àquelas que concordam com a nossa idéia.
“A compreensão humana, após ter adotado uma opinião, coleciona quaisquer instâncias que a confirmem, e ainda que as instâncias contrárias possam ser muito mais numerosas e influentes, ela não as percebe, ou então as rejeita, de modo que sua opinião permaneça inabalada.“
(Francis Bacon, 1620)
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Recomendo o livro. Excelente.
Mesmo pra quem não entende lhufas de matemática, estatística, probabilidade (como eu).